A epidemia silenciosa dos vereadores federais

Há algo curioso — e revelador — no jeito como a política municipal vem se comportando nos últimos tempos. As câmaras continuam sendo câmaras, os microfones continuam fixos nas mesas, mas a plateia mudou. Hoje, ela cabe inteira dentro de um celular.

O vereador, figura essencialmente local, aquele eleito para olhar o buraco da rua, a lâmpada apagada, o posto de saúde lotado, descobriu um novo palco. Já não fala apenas para os colegas de plenário. Fala para a câmera. E quando a câmera entra em cena, o discurso muda de tom, de tamanho e, muitas vezes, de endereço.

Não é ilegal. Não é proibido. Mas é sintomático.

Há vereadores que parecem mais atentos ao que acontece em Brasília do que ao que acontece no próprio bairro que os elegeu. Comentam crises nacionais, travam batalhas ideológicas de alcance continental e disputam narrativas que rendem curtidas, cortes e compartilhamentos. O mandato vira conteúdo.

A política vira performance.

Representar dá trabalho. Performar dá visibilidade. E, no mundo atual, visibilidade virou moeda política.

Não se trata de esquerda ou direita, governo ou oposição. Trata-se de foco. Quando o discurso municipal se desloca demais para o debate nacional, algo fica para trás. Geralmente, o básico. Geralmente, o cotidiano.

Talvez o grande debate não seja o que esses vereadores dizem, mas para quem dizem. Se falam para o eleitor da rua ou para o algoritmo da rede. Se usam o mandato como instrumento de solução ou como vitrine permanente.

A política local sempre foi o primeiro degrau da democracia. O risco é ela se tornar apenas o primeiro cenário de um espetáculo contínuo.

E espetáculo, como sabemos, termina quando as luzes se apagam.

Já os problemas… esses ficam.

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